Your description here, try to keep it a certain length at least so that it fills up the box. One-liners won't look very pretty in an empty box.
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quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Acordei na sexta-feira, lavei o rosto, coloquei minhas lentes e constatei: vou ficar cega. Não foi exatamente após passar a enxergar com os sete graus de miopia que me faltam, mas mais ou menos uma hora, trinta minutos e quarenta e dois segundos depois.
Estava eu na aula de mídia pensando no alto índice de penetração da TV aberta quando, ao notar que as pessoas tinham uma cabeça e meia ao invés de uma, vi que algo estava errado. Pior ou melhor, o problema estava só no olho direito. Mais pra pior, o direito é o meu olho vegetal (pausa para explicar: olho vegetal é aquele sem expressão, apático, que não sofre qualquer alteração ao se contrair vários músculos da face num sorriso). Foi a partir daí que comecei a imaginar diagnósticos terríveis, desde uma úlcerazinha, um glaucoma e cegueira. Era muita coincidência ser o olho vegetal. Vai que a parte direita do meu cérebro tem um grande defeito e faz os órgãos do meu corpo desse lado apresentarem deficiências. Minha mãe, nada hipocondríaca, pensou em coisas piores quando eu a comuniquei por telefone sobre meu estado olhal.
Chegado o sábado, descobri que o problema de enxergar embaçado como um gambá bêbado não estava extamente no olho, e sim na lente. Aos finais de semana uso óculos pra ficar em casa e minha vista parecia perfeitamente normal. Ok, deve ser porque não lavei direito da última vez, pensei. Infelizmente, para a saúde emocional minha e da minha mãe, na segunda voltou tudo. Marquei oftamologista com urgência pro dia seguinte. Pedi pra avisarem à professora que eu não compareceria à aula, pois tinha de levar meu olho de vidro pra dar uma lustrada no médico. Entrei nervosa no consultório, mas a doutora calma como sempre. Expliquei que o estranho fenômeno começou de um dia pro outro, assim, do nada. Ela pareceu pensativa. Me levou naqueles aparelhinhos bacanas de se examinar a retina (ou sei lá que diabos), uma, duas vezes. Não disse nada. Jesus Cristo, perdi o olho. Sentei então na poltrona pra fazer o teste das letrinhas. A médica tampou meu olho esquerdo com o aparelho e pôs uma lente. "Assim fica melhor?", "Totalmente". "E essa aqui no outro?", "Ficou um pouco embaçado". Sem mais, ela dirigiu-se à porta lentamente e abriu-a, dizendo "Eu acho que você trocou as lentes. Direita pela esquerda. Vá destrocá-las".
15:10
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
16:10
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Foi se olhando no espelho que notou. A pintinha no queixo. Que sempre esteve ali e só teve a devida atenção vinte e um anos depois, quando ela parou pra olhar enquanto passava loção no rosto. O pai tem uma perto do nariz, a mãe também. Ela herdou no queixo. Não que seja uma coisa linda de se ver, mas é engraçadinha, por assim dizer. Um dos muitos detalhes que passam despercebidos. Tem aquela pinta nas costas que você acha bonita, mas ela raramente consegue ver. Saiu de casa enfiando a sombrinha na bolsa, prometendo que iria reparar mais. Sentou-se no carro pensando em como os detalhes podem ser interessantes. Todos, de todos os tipos. É só perceber e parece que estamos vendo-os pela primeira vez. E ela acha isso algo encantador de se acontecer.
As pintinhas ela reparou pelos seus olhos. Afinal, que graça ela sozihha poderia achar nelas? Foi você também quem a fez notar seus próprios trejeitos e expressões nada sutis. "Que garota espontânea!", talvez pensasse. Espontânea pra você, esquisita pra ela. Notou, andando pelo campus, que costuma caminhar olhando pra baixo. Seria um agravante pra um dos múltiplos problemas de coluna? Às vezes anda sem pisar nas linhas da calçada, como Melvin Udall fazia. Pensou sobre como a grama do jardim em frente ao prédio onde estuda é verde vivo. Sobre o sol ser tão gostoso e ameno às seis e meia da manhã, e como o refrão daquela música arrepia os cabelos do seu braço. E chegou a você.
Lembrou-se do detalhe que notou desde o dia que se conheceram: o jeito como você mexe na sobrancelha quando fica sem graça. Ela se irritou com isso durante um tempo, mas agora acha engraçado. Como você espreme os dedinhos do pé involuntariamente quando anda. A maneira despreocupada de dirigir, com uma mão no volante e outra na marcha (ou em qualquer outro lugar). Os dentes bem brancos e simpáticos quando você ri com vontade. As bochechas lisinhas que só os olhos dela conseguem notar, loucos por uma mordida.
Ela sentou-se na cadeira antes de começar a aula e imaginou os detalhes que você estaria pensando daqui a alguns anos. Em como ela gosta de pôr o feijão sobre o arroz. As músicas que canta tomando banho, como fica vermelha depois que sai do chuveiro. O jeito de dormir de bruços com o braço sobre as costas, o travesseiro grudado no pescoço. Como ela aperta sua mão quando está com medo. Quantas colheres de açúcar coloca no suco de maracujá. E a pintinha no queixo. Nas costas, na barriga, no pé...
Nossos detalhes.
10:09
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Acordei na sexta-feira, lavei o rosto, coloquei minhas lentes e constatei: vou ficar cega. Não foi exatamente após passar a enxergar com os sete graus de miopia que me faltam, mas mais ou menos uma hora, trinta minutos e quarenta e dois segundos depois.
Estava eu na aula de mídia pensando no alto índice de penetração da TV aberta quando, ao notar que as pessoas tinham uma cabeça e meia ao invés de uma, vi que algo estava errado. Pior ou melhor, o problema estava só no olho direito. Mais pra pior, o direito é o meu olho vegetal (pausa para explicar: olho vegetal é aquele sem expressão, apático, que não sofre qualquer alteração ao se contrair vários músculos da face num sorriso). Foi a partir daí que comecei a imaginar diagnósticos terríveis, desde uma úlcerazinha, um glaucoma e cegueira. Era muita coincidência ser o olho vegetal. Vai que a parte direita do meu cérebro tem um grande defeito e faz os órgãos do meu corpo desse lado apresentarem deficiências. Minha mãe, nada hipocondríaca, pensou em coisas piores quando eu a comuniquei por telefone sobre meu estado olhal.
Chegado o sábado, descobri que o problema de enxergar embaçado como um gambá bêbado não estava extamente no olho, e sim na lente. Aos finais de semana uso óculos pra ficar em casa e minha vista parecia perfeitamente normal. Ok, deve ser porque não lavei direito da última vez, pensei. Infelizmente, para a saúde emocional minha e da minha mãe, na segunda voltou tudo. Marquei oftamologista com urgência pro dia seguinte. Pedi pra avisarem à professora que eu não compareceria à aula, pois tinha de levar meu olho de vidro pra dar uma lustrada no médico. Entrei nervosa no consultório, mas a doutora calma como sempre. Expliquei que o estranho fenômeno começou de um dia pro outro, assim, do nada. Ela pareceu pensativa. Me levou naqueles aparelhinhos bacanas de se examinar a retina (ou sei lá que diabos), uma, duas vezes. Não disse nada. Jesus Cristo, perdi o olho. Sentei então na poltrona pra fazer o teste das letrinhas. A médica tampou meu olho esquerdo com o aparelho e pôs uma lente. "Assim fica melhor?", "Totalmente". "E essa aqui no outro?", "Ficou um pouco embaçado". Sem mais, ela dirigiu-se à porta lentamente e abriu-a, dizendo "Eu acho que você trocou as lentes. Direita pela esquerda. Vá destrocá-las".
15:10
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
16:10
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Foi se olhando no espelho que notou. A pintinha no queixo. Que sempre esteve ali e só teve a devida atenção vinte e um anos depois, quando ela parou pra olhar enquanto passava loção no rosto. O pai tem uma perto do nariz, a mãe também. Ela herdou no queixo. Não que seja uma coisa linda de se ver, mas é engraçadinha, por assim dizer. Um dos muitos detalhes que passam despercebidos. Tem aquela pinta nas costas que você acha bonita, mas ela raramente consegue ver. Saiu de casa enfiando a sombrinha na bolsa, prometendo que iria reparar mais. Sentou-se no carro pensando em como os detalhes podem ser interessantes. Todos, de todos os tipos. É só perceber e parece que estamos vendo-os pela primeira vez. E ela acha isso algo encantador de se acontecer.
As pintinhas ela reparou pelos seus olhos. Afinal, que graça ela sozihha poderia achar nelas? Foi você também quem a fez notar seus próprios trejeitos e expressões nada sutis. "Que garota espontânea!", talvez pensasse. Espontânea pra você, esquisita pra ela. Notou, andando pelo campus, que costuma caminhar olhando pra baixo. Seria um agravante pra um dos múltiplos problemas de coluna? Às vezes anda sem pisar nas linhas da calçada, como Melvin Udall fazia. Pensou sobre como a grama do jardim em frente ao prédio onde estuda é verde vivo. Sobre o sol ser tão gostoso e ameno às seis e meia da manhã, e como o refrão daquela música arrepia os cabelos do seu braço. E chegou a você.
Lembrou-se do detalhe que notou desde o dia que se conheceram: o jeito como você mexe na sobrancelha quando fica sem graça. Ela se irritou com isso durante um tempo, mas agora acha engraçado. Como você espreme os dedinhos do pé involuntariamente quando anda. A maneira despreocupada de dirigir, com uma mão no volante e outra na marcha (ou em qualquer outro lugar). Os dentes bem brancos e simpáticos quando você ri com vontade. As bochechas lisinhas que só os olhos dela conseguem notar, loucos por uma mordida.
Ela sentou-se na cadeira antes de começar a aula e imaginou os detalhes que você estaria pensando daqui a alguns anos. Em como ela gosta de pôr o feijão sobre o arroz. As músicas que canta tomando banho, como fica vermelha depois que sai do chuveiro. O jeito de dormir de bruços com o braço sobre as costas, o travesseiro grudado no pescoço. Como ela aperta sua mão quando está com medo. Quantas colheres de açúcar coloca no suco de maracujá. E a pintinha no queixo. Nas costas, na barriga, no pé...
Nossos detalhes.
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