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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
E assim toda a discussão familiar se resumiu no cachorro. Todas as aflições, angústias, raivas e frustrações eram culpa do cachorro. Mariana sabia que desse jeito era muito mais fácil arranjar um motivo pra tudo de ruim que acontecia, e esse motivo era Pompeu. Mas resolveu ficar calada, enxugando seus pêlos molhados da chuva, ouvindo os pais discutindo sobre a quem doar o pobre semeador da discórdia. Tinha raiva, claro, por serem tão cegos de não enxergarem que os problemas estavam neles mesmos. Iam deixar passar de novo. Essa história mal resolvida que só crescia como uma bola de neve. A bola saía rolando e aumentando e as pessoas fingiam não perceber. A culpa era do cachorro mesmo.
Mariana tinha raiva, mas ficou calada. Pompeu começou a dar bastante trabalho vivendo naquele cubículo de apartamento, soltando pêlos, precisando sair pra umas mijadinhas algumas vezes por dia, arfando e latindo. Tinha, porém, uma parcela de culpa pelo stress gerado ao longo do tempo. Mas que, pra Mariana, não eram nada em vista da alegria que ele já proporcionou pra todo mundo. Ótimo, queriam dá-lo a alguém, e ela só queria ver se teriam coragem de colocar a coleira no pescoço do sempre devoto Pompeu e levá-lo pro carro, queria ver o quanto chorariam e o tamanho da saudade que sentiriam da sua carinha de bunda a implorar por um miolo de pão.
Quando brigas desse tipo aconteciam, Mariana virava outra pessoa. O bloqueio emocional de 10 km se reduzia à um abraço na mãe, palavras carinhosas, cuidados e uma maturidade atípica. Era como as coisas deveriam ser em momentos normais, mas não eram. Nessas horas Mariana via tudo como se fosse a primeira vez. A mãe frágil e chorosa e seu próprio jeito de consolá-la e fazer as coisas voltarem ao normal. Sua atitude firme de preparar o remédio e o copo de água, de arrumar a cama, chamá-la pro banho, de murmurar pra que se acalmasse. A indiferença se transformava em súbito e vívido interesse, compaixão. Mas mais importante do que fazer tudo como da primeira vez, era perceber a sensação primária que isso lhe causava. Era o que fazia parecer que você pode perder o que mais ama num segundo e só se dar conta depois. Os fracassos, as frustrações, a descrença, a rotina, parecem ofuscar aquilo que merece a verdadeira atenção, cuja chama é preciso sempre ter cuidado pra não se apagar de vez.
Mas na maior das turbulências, Mariana conseguia enxergar essa chama. E podia sentir como ela ainda queimava. Voltou-se para Pompeu e admitiu que ficar sem ele dali a uma semana ou um mês era algo real, então. Conversou com ele, secando delicadamente suas patas com um pano de chão, passando o dedo em seu focinho, beijando sua testa enrugada. Pompeu continuava parado deixando-a terminar o serviço. Mariana percebeu que de repente seus olhos nunca lhe pareceram tão doces e amáveis. Seu pêlo nunca fora tão brilhante, o abanar do rabo tão encantador, seu espreguiçar tão engraçado. A própria amizade e fidelidade dele nunca foram tão palpáveis, enquanto olhava a dona com aqueles olhinhos brilhantes como azeitona preta. Mariana sentiu um nó na garganta. A possibilidade da perda era como uma venda sendo desamarrada.
Ela abaixou-se e o abraçou, numa linda cena de filme. "É sua culpa. É sua culpa de verdade eu me importar tanto".
"And what is all comes down to
Is that I haven't got it all figured out just yet
'Cause I've got one hand in my pocket
And the other one is giving the peace sign"
Hand in my pocket, Alanis Morissette
19:10