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quarta-feira, 6 de maio de 2009
Eu só quero me lembrar de quando ele estava bem. Pode ser um escudo pra fugir do sofrimento, mas que se foda. Agora já não importa mais mesmo. Quero ver as cenas em que ele ainda andava, comia e se deitava só porque estava com sono.
Eu tinha 11 anos quando ganhei o Yankee. Fui com meus pais na casa de uma senhorinha em Araçás sabendo que sua Poodle toy havia dado cria. Dois filhotes, machos; um já estava com a nova família. O outro me esperava dormindo numa caixinha de papelão, tão pequeno que cabia dentro do bolso do meu casaco. Tão pretinho, que a língua rosa era a única coisa colorida que consegui enxergar. Chamei ele de "meu princepezinho". Era uma encantadora bolinha preta andando pelo chão.
Com o tempo, Yankee se mostrou inteligente e de temperamento forte, se achava o rei do pedaço. Aos 3 meses quebrou a perninha e nunca mais entrou em um carro sem chorar. Era manhoso, só aceitava ficar no colo se ganhasse carinho constante no pescoço e adorava lamber minha orelha. Minha orelha, a geladeira e o chão da cozinha, diga-se de passagem. É, ele tinha umas manias estranhas assim. Antes de comer, havia todo um ritual de arrastar o potinho da ração com as patas enquanto gritava. Era engraçado, mas às vezes irritava.
Com os anos, os pêlos de Yankee foram passando de pretos pra acinzentados. Já não tinha o mesmo vigor de antes, não queria brincar com seus bichinhos de borracha e tampouco se achava o rei do pedaço. Continuava sim, manhoso, carente e companheiro, sempre pelos nossos calcanhares como uma sombra dentro de casa.
No último domingo, aos 10 anos de idade, Yankee teve que partir. Uma das muitas convulsões que ele já teve enfim gerou algumas sequelas. Meu princepezinho não andava mais, nem comia, nem bebia água. Foi internado e, durante sua última noite, teve outra crise e não fazia nada além de resmungar de dor. Foi duro, triste e de repente. Por mais velhinho que ele estivesse, eu jurava que ainda estaria aqui por mais uns cinco anos.
O post de hoje é pra ele. De certa forma, uma parte do Yankee vai ficar sempre com a gente quando formos à Jacaraípe. O enterramos no quintal da casa da minha tia, pra onde vou com alguma frequência. Hoje fazem três dias e parece que a ficha ainda não caiu. Talvez eu ainda ache que vou encontrá-lo dormindo na caminha perto do sofá. Mas não há mais caminha, nem potinho, nem suas roupinhas pra apertar nosso coração. Kaoma às vezes cheira seu cantinho e deita, silenciosa. É melhor mesmo só lembrar de quando ele estava bem.
Só quem já tem ou teve um cãozinho sabe como é ruim e estranho ter que dizer adeus a 'quem', durante toda a vida, nos retribuiu com amor incondicional.
18:37