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terça-feira, 25 de agosto de 2009
Já devo ter falado alguma coisa sobre isso, mas cheiros são as melhores lembranças que se pode ter. Pelo menos pra mim. É tão gostoso lembrar de alguém, um lugar, uma história, quando sentimos o cheiro de um perfume... da terra molhada. Até de um galinheiro, por que não? Galinheiros me fazem lembrar da minha infância em João Neiva. Bom é quando nos remetem a uma época inteira.
Quando eu ainda morava na cobertura, minha mãe resolveu comprar um armário novo pro meu quarto. Conseguiu um barato numa loja de móveis usados. Era bem grande, amarelado, de madeira. No começo eu me incomodava com aquele cheiro peculiar do armário. Eu ficava praticamente grudada nele o dia inteiro, já que a mesa de computador era do lado. Chegava a me enjoar algumas vezes. Com o tempo, me acostumei e nem sentia mais diferença.
Ano retrasado me mudei da cobertura e, com ela, abandonei o meu armário. Junto com os anos em que vivi ali, as conversas, os códigos falados, os choros, as músicas que ouvi. Agora, ele deixaria lembranças a outra pessoa, até quando o seu cheiro enjoativo sobrevivesse.
Dias atrás me virei na cama pra dormir, de cara na parede. Respirei fundo uma vez antes de relaxar e, de repente, senti. O cheiro do armário amarelo. Foi uma lufada de memórias de uma só vez na minha cabeça. Quase prendi a respiração pra não deixa-las ir embora. Respirei devagar de novo e vi o quão mágico é se lembrar de tanta coisa por causa um detalhe. Revivi naqueles segundos meu riso com Pedro, quando ele ainda se fazia presente. Meus segredos com Day, as conversas com Munchie de madrugada, me contando sobre coisas da sua vida que eu quis guardar e escrever um livro. Ah, e o meu livro, que comecei e nunca consegui terminar... estava lá, comigo costurando as tramas sem uma lógica certa, feito uma colcha de retalhos diferentes. Joga, da Bjork, tocava de fundo. É da música da qual mais me lembro. E havia você. Você indo embora cada vez mais longe, enquanto eu percebia na mesma proporção que estava te amando. Só uma das tantas ironias que insistem em atravessar nosso caminho. Não que elas sejam ruins. Acho que dão um sabor a mais. Doce como o cheiro enjoativo e amadeirado do armário.
18:50